A Erosão da Política Democrática e o Fim da Confiança.
A erosão da política democrática decorre da conjugação entre desigualdade económica
crescente e perceção de injustiça institucional. Quando os cidadãos deixam de reconhecer
justiça na distribuição dos recursos e imparcialidade no funcionamento das instituições a
confiança social enfraquece.
A desconfiança na política não se explica apenas por escândalos, pelos ciclos eleitorais
ou pela liderança fraca. O problema é mais fundo.
Se recorrermos à doutrina e à história, podemos ver que as instituições só são estáveis
quando podem ser vistas como justas por cidadãos livres (Rawls, 1971). Historicamente,
a concentração de riqueza tende a reconstituir hierarquias persistentes e a limitar a
promessa de igualdade democrática (Piketty, 2014). Se olharmos pelo prisma moral e
cultural, a linguagem do mérito transforma desigualdades estruturais em fracassos
individuais, abrindo espaço a humilhação, ressentimento e reprovação recíproca (Sandel,
2020). É neste cruzamento que a política começa a perder densidade, autoridade e até,
sentido.
A ligação entre desigualdade e legitimidade institucional é particularmente clara à luz de
Rawls. Se a estrutura básica da sociedade distribui bens, direitos, oportunidades e
reconhecimento de forma sistematicamente desigual, e se essa desigualdade não beneficia
os menos favorecidos, a ordem institucional deixa de parecer justificável aos olhos dos
cidadãos (Rawls, 1971). Para o filósofo americano, a legitimidade não depende apenas da
legalidade das instituições, depende da possibilidade destas serem publicamente
justificáveis perante os cidadãos, livres e iguais. Por isso mesmo, a injustiça distributiva
não é um problema lateral da democracia, mas sim um ponto que atinge o próprio
fundamento moral da autoridade política.
A questão, portanto, deixa de ser apenas económico-distributiva e passa também a ser
filosófico-política. Uma democracia pode conservar procedimentos formais e, ao mesmo
tempo, perder a convicção partilhada de que as suas regras são justas.
A evidência internacional reforça esta leitura. O World Inequality Report mostra que os
10% mais ricos recebem 53% do rendimento global, enquanto a metade inferior recebe
apenas 8%. No património, a concentração é ainda mais acentuada, o topo detém cerca
de três quartos da riqueza mundial, ao passo que a metade inferior fica reduzida a uma
fração mínima (WIL, 2022). Ao cruzarmos estes indicadores com a visão de Piketty,
podemos concluir que a desigualdade não é apenas elevada, mas sim, estrutural e
cumulativa (Piketty, 2014). Piketty mostra-nos como a acumulação de capital tende a
transformar vantagem económica em poder social, influencia política e reprodução
intergeracional de oportunidades. O que cria uma assimetria de poder dentro da
comunidade política.
No espaço da OCDE, o problema assume forma social e precetiva. A organização refere
que 44% dos inquiridos exprimem confiança baixa ou nula no governo nacional, enquanto
apenas 39% relatam confiança elevada ou moderada. Além disso, mais de 60%
consideram excessivas as disparidades de rendimento e de riqueza no respetivo país
(OCDE, 2024). Este ponto importa, pois não basta haver desigualdade, é decisivo que ela
seja percebida como excessiva e injusta. É precisamente essa passagem da condição
material para o juízo moral que ajuda a explicar a fragilidade da legitimidade.
Em Portugal, os dados são ambivalentes. Devemos olhar para o coeficiente de Gini, que
mede a desigualdade na distribuição de rendimentos numa escala de 0, que é a igualdade
perfeita a 100 a desigualdade máxima. O INE indica que o coeficiente de Gini desceu de
31,9% para 30,9% em 2024, o que sinaliza uma melhoria recente. Ainda assim, 19,7% da
população manteve-se em risco de pobreza ou exclusão social, isto é, cerca de 2,1 milhões
de pessoas (INE, 2025). A leitura destes dados reflete uma correção distributiva, mas não
esqueçamos que um ano positivo não elimina vulnerabilidades acumuladas, nem apaga a
perceção de distância entre grupos sociais.
Vejamos ainda a redução da carga fiscal, visível na diminuição das receitas de IRS em
5,1% e nas medidas de alívio fiscal anunciadas para a classe média. Estas, aumentaram o
rendimento disponível em alguns grupos, mas não eliminaram, por si só, a persistência
de pobreza e exclusão.
A grande questão é perceber se a redistribuição fiscal chegou aos grupos mais expostos à
precariedade, ao custo da habitação, aos baixos salários e à instabilidade económica. No
caso português, esta discussão adquire especial relevância perante medidas como o IRS
Jovem ou a isenção de IMT e Imposto do Selo para determinados segmentos etários.
Ainda que justificadas como mecanismos de incentivo económico e fixação geracional,
estas políticas podem gerar efeitos distributivos assimétricos e reforçar a perceção de que
o reconhecimento institucional é seletivo ou desigual. A desigualdade deixa então de ser
apenas material e passa a ser interpretada como diferença de consideração política dentro
da própria comunidade democrática.
Já em tom de conclusão, parece claro que a erosão da política democrática não nasce
apenas da má governação conjuntural. Forma-se quando desigualdade económica,
ausência de reconhecimento e suspeita de injustiça institucional se reforçam mutuamente.
Recorrendo aos três autores previamente citados, sabemos que segundo Rawls, sem
justiça a legitimidade perde base moral. Piketty mostra que a economia contemporânea
tende a concentrar recursos e poder. Sandel explica porque essa concentração se
transforma em ressentimento social. A evidência empírica apresentada, sustenta esta
sequência. A desigualdade elevada, acompanhada da sua perceção, leva a perda de
confiança nas instituições políticas (INE, 2025; OCDE, 2024; WIL,2022).
Assim sendo, podemos afirmar que a democracia não se degrada apenas com o abandono
popular das urnas ou com a menor filiação partidária da população. Degrada-se, também,
quando os cidadãos deixam de acreditar que contam como iguais no espaço publico.
Este contexto cria um clima propenso para o crescimento de forças políticas demagógicas.
Como observa Jan-Werner Müller, o populismo tende a apresentar-se como a voz
exclusiva do “verdadeiro povo”, transformando a divergência democrática numa
oposição moral entre o povo legítimo e as elites consideradas corruptas (Müller, 2016).
Os últimos anos são a concretização do, agora, mencionado.
Diria, que a resposta fácil para os problemas complexos do mundo convence massas
desacreditadas, entristecidas pelas frustrações económicas e sociais e desentranhadas do
seu ideal de comunidade. Combater tal movimento além de hercúleo, é imprescindível
para conseguirmos manter o ideal democrático, próspero e livre, vivo.
No fundo, a erosão da política democrática é a perda da confiança numa imprescindível
e basilar promessa. A de uma sociedade governada por regras justas, reconhecidas por
todos e orientadas para uma vida coletiva digna.
Não deixemos cair esta crença. Porque sem ela perdemos o que une os cidadãos livres.
Perdemos a capacidade de construir, em conjunto, algo maior que nós.
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